O HUMANISMO NA LITERATURA PORTUGUESA
O Humanismo português vai
desde a nomeação de Fernão Lopes para o cargo de cronista-mor da Torre
do Tombo, em 1434, até o retorno de Sá de Miranda da Itália, em 1527,
quando começou a introduzir em Portugal a nova estética clássica.
Torre do Tombo: arquivo do Reino, onde se guardavam os documentos
oficiais. A Torre do Tombo foi destruída por um terremoto em 1755, mas o
arquivo conservou sempre o mesmo nome.
O termo Humanismo literário
é usado comumente para designar o estudo das letras humanas em oposição
à Teologia. Na Idade Média, predomina a concepção teocêntrica, em que
tudo gira em torno dos valores religiosos. A partir do Humanismo
desenvolve-se uma nova concepção de vida: os eruditos defendem a reforma
total do homem; acentuam-se o valor do homem na terra, tudo o que possa
tornar conhecido o ser humano; preocupam-se com o desenvolvimento da
personalidade humana, das suas faculdades criadoras; têm como objetivo
atualizar, dinamizar e dar uma nova vida aos estudos tradicionais;
empenham-se em fazer a reforma educacional.
Nesse período da
história literária, são cada vez mais lidos e apreciados os autores
gregos e latinos. A estética medieval – rude e grosseira – é substituída
pela grego-latina – harmoniosa e culta. O latim passa a ser a língua de
muitos humanistas, que se deixam tomar de grande entusiasmo pelo saber,
pelas artes clássicas.
A produção literária portuguesa desse período pode ser subdividida em:
_ Prosa: a) Crônicas de Fernão Lopes, b) Prosa doutrinária e c) Novela de cavalaria
_ Poesia: Poesia palaciana
_ Teatro: Obra de Gil Vicente
Prosa
Conhecido como o “Pai da Historiografia portuguesa”, Fernão Lopes foi
encarregado por D. Duarte de guardar os arquivos da Torre do Tombo, onde
se achavam os principais documentos sobre Portugal. Incumbido de
escrever relatos sobre os acontecimentos de diversos períodos históricos
(as chamadas crônicas), Fernão Lopes destacou-se como um prosador dono
de um estilo rico e movimentado. Não se limitando a tecer elogios a
reis, como a outros cronistas da época; fez descrições detalhadas não só
do ambiente da corte, mas também das aldeias, das festas populares e,
principalmente, do papel do povo nas guerras e rebeliões.
São de sua autoria:
_ A Crônica de El-Rei D. Pedro I: narrativa dos principais acontecimentos de seu reinado;
_ A Crônica de El-Rei D. Fernando: narrativa dos fatos que ocorreram
desde o casamento de D. Fernando com Leonor Telles até o início da
Revolução de Avis;
_ A Crônica de El-Rei D. João I: narrativa dos
acontecimentos relativos a seu reinado (1385-1411), quando é assinado a
paz com Castela.
Fernão Lopes é reconhecido como historiador de
inegável méritos e verdadeiro narrador-artista preocupado não apenas com
a verdade do conteúdo de suas narrativas, mas também com a beleza da
forma. É reconhecido também pela sua capacidade de observar e analisar
personagens históricas. Fernão Lopes analisou com objetividade e justiça
os documentos históricos: foi cauteloso em determinar a verdade
histórica, ao confrontar textos e versões sobre um mesmo acontecimento.
Novela de Cavalaria
Como já vimos no Trovadorismo, a novela de cavalaria relatava os feitos
históricos de um corajoso cavaleiro, em alguma nobre missão. Neste
período, é escrita a novela Amadis de Gaula, que conta a história do
cavaleiro Amadis, apaixonado por Oriana, por que se lança em inúmeras
aventuras
Gil Vicente (1465? – 1536): poeta e dramaturgo
português. De sua vida pouco se sabe. Foi famoso como ourives, atraindo
com suas obras de ourivesaria a atenção da rainha Leonor que se tornou
sua protetora.
Gil Vicente encenou suas primeiras peça em 1502.
Exerceu na corte a função de organizador das festas palacianas. Seu
prestígio foi grande a ponto de sentir-se à vontade para criticar o
clero. Em conseqüência, teve algumas de suas peças censuradas pela
Inquisição, por serem consideradas ofensivas à Igreja.
A obra de
Gil Vicente apresenta dois aspectos: o religioso e o profano. No
primeiro, destacam-se os autos de moralidade, em que são oferecidos
ensinamentos relacionados à moral cristã. Quanto ao aspecto profano,
suas obras enfatizam a sátira, a crítica social e refletem as marcas de
seu tempo.
Gil Vicente emprega, em geral, a língua do povo, a
língua de transição entre a arcaica e a clássica. Nas comédias, há
passagens humorísticas e poéticas. Observa-se o uso freqüente de frases
familiares, vocábulos populares como: guiolho, increu, somana, etc. No
entanto, o vocabulário é rico e apropriado. As palavras pronunciadas por
um clérigo ou um fidalgo não são as mesmas de um criado ou de uma
feiticeira.
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